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Publicado em 23/09/2011 | Categoria: Artigos/Opinio
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Intruso Marinha

Por Suzana Montenegro*

 

As águas subterrâneas são responsáveis pelo abastecimento de grande parcela da população mundial. A intrusão marinha é a penetração da água salgada do mar na zona de água doce do aqüífero. Essa é uma das possíveis causas de contaminação das águas subterrâneas. Nas zonas costeiras há um equilíbrio entre a água subterrânea doce e a água subterrânea salgada, que está vindo do mar. Forma-se então uma interface água salgada- água doce. A água do mar por ser mais densa, permanece embaixo da água doce (ver figura 1). Em realidade essa interface água doce- água salgada não é abrupta constituindo-se na maioria dos casos em uma zona de mistura. Em situações em que uma quantidade excessiva de água subterrânea é extraída através de poços, em desequilíbrio com a recarga natural produzida pelas águas da chuva, ocorre um avanço dessa interface, produzindo a salinização do aqüífero, ou partes desse.

Esquema de intrusão marinha

O fenômeno provoca a degradação do aqüífero, tornando suas águas impróprias para diversos usos, incluindo o consumo humano. A questão da intrusão marinha em aqüíferos costeiros afeta grande parte das cidades costeiras do mundo que utilizam água subterrânea para abastecimento público.

No Brasil, diversas cidades litorâneas que utilizam de forma intensiva as águas subterrâneas para o abastecimento público possuem risco de degradação dos aqüíferos costeiros por salinização produzida pelo avanço da cunha salina em direção ao continente, a exemplo de Fortaleza, Maceió, Recife e Rio de Janeiro, todas densamente povoadas.

Este assunto vem sendo objeto de pesquisas por muitas décadas em diversos países. Recentemente foi realizado um estudo comparativo da informação existente sobre 15 aquíferos costeiros da América do Sul, para conhecer as características comuns das áreas costeiras desse subcontinente, incorporando-se também o conhecimento sobre outras áreas. O grau de conhecimento e de práticas de gestão são variáveis, desde quase nenhuma informação (a situação mais comum) até modelos conceituais bem estabelecidos quanto ao conhecimento do aquífero e quanto a atuações apropriadas de gestão. Tais atuações de gestão compreenderiam a relocação de pontos de extração de água através dos poços, extrações de água subterrânea salobra das camadas salinizadas e lançamento no mar, e a cartografia de vulnerabilidade de aquíferos. Algumas das características comuns a todos os aqüíferos avaliados nesse estudo são: exploração intensiva de água subterrânea, falta de estudos de caracterização que suportem o planejamento e gestão das águas subterrâneas, falta de redes de observação e a necessidade de criar uma consciência sobre a questão na sociedade e sua implicação no planejamento. Os problemas de qualidade e quantidade que aparecem em áreas altamente povoadas que estão associadas a aquíferos costeiros sul-americanos indicam um desenvolvimento não sustentável das águas subterrâneas. O uso sustentável desses aquíferos deve basear-se na avaliação adequada das características dos aquíferos e em seu monitoramento, além da aplicação de instrumentos de gestão como o controle do uso através da concessão de outorga. Por exemplo, no estado de Pernambuco, a gestão de águas subterrâneas é exercida, com base em legislação , conjuntamente pelo órgão ambiental do estado e pelo órgão gestor de recursos hídricos, que são responsáveis pela concessão das licenças de instalação e operação de poços. A análise dos pleitos para a concessão das licenças baseia-se no zoneamento de exploração em vigor(ver mapa do Zoneamento na Figura 2).

Zoneamento Recife

Os métodos de investigação da ocorrência de intrusão salina ainda são muito discutidos. É necessário investigar se a origem da salinização por ventura identificada nas águas de poços é de fato de origem marinha. Outras possíveis fontes de salinização de águas subterrâneas em aqüíferos costeiros é a contaminação por estuários de rios, mangues, e por efluentes de fossas negras e presença de águas subterrâneas antigas salinizadas. Poços mal construídos ou atacados por corrosão podem também levar à contaminação por salinização de camadas mais superiores para outras inferiores do mesmo aqüífero ou de formações adjacentes. A extração de água deve ser interrompida em poços nos quais são identificados elevada salinização. Esses poços devem ser lacrados ou cimentados.

Dentre as técnicas citadas destacam- se a análise de amostras de água coletadas em poços. As amostras podem ser analisadas para determinação de condutividade elétrica, íons e isótopos estáveis. Destaca- se que em aqüíferos costeiros a investigação dos aspectos químicos é mais importante devido às rápidas mudanças hidroquímicas que podem ocorrer.

O controle da intrusão marinha é efetuado principalmente reduzindo a retirada de água de poços. Para conter o avanço da cunha salina, várias experiências a nível mundial vem se baseando em injeção de água doce na posição da interface ou próximo a ela no continente, fazendo com que a mesma se mova em direção ao oceano. Essas técnicas conhecidas como recarga artificial vem sendo empregadas de diferentes maneiras em países como Espanha, Estados Unidos, Canadá, Austrália. Por exemplo, podem ser criadas barreiras hidráulicas com uma sequência de poços de injeção de água doce.

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), juntamente com a ABAS- Associação Brasileira de Águas Subterrâneas são os responsáveis pela organização do 22 ° Encontro sobre

Intrusão da Água do Mar que ocorrerá em Julho de 2012, em Búzios, RJ. Realizado a cada dois anos, esse encontro acontecerá pela primeira vez em um país do Hemisfério Sul. Sem dúvida, uma boa oportunidade para dicutirmos os possíveis de problemas com intrusão marinha nos nossos aquíferos costeiros.

 

*Suzana Montenegro, Diretora de Regulação e Monitoramento da Agência Pernambucana de Águas e  Clima   (APAC), é PhD em Recursos Hídricos/engenharia civil e faz parte do Grupo de Recursos Hídricos (GRH) do         Centro    de Tecnologia e Geociências (CTG) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)