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Publicado em 04/10/2011 | Categoria: Artigos/Opinio
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Um ativista contra a cegueira ambiental

Leonardo BoffAs barbas brancas de Leonardo Boff são inconfundíveis. No hotel onde está hospedado no Recife, o teólogo é reconhecido   por muitos hóspedes. “Não lembro do nome, mas já vi aquele senhor de barba branca. Acho que na televisão ou numa revista. Ele é um religioso, não é?”.

A pergunta veio de um dos seguranças do hotel, que meio acanhado perguntou se Boff também era escritor. Sorridente e em passos vagarosos, Boff, que participa de uma série de palestras na cidade, respondeu: “Mais de 60 livros”. O segurança agradeceu a informação e acompanhou, embora disfarçadamente, a entrevista que segue abaixo. Na conversa com o Diario, o teólogo, que afastou-se do sacerdócio católico nos anos 1990, disse que as igrejas são cúmplices da crise ecológica atual. Isso por colocarem o homem acima da natureza, quando devia ser visto como cuidador. Para Boff, com notoriedade internacional por seus escritos e reflexões, os governos brasileiros têm uma “verdadeira cegueira” em relação ao meio ambiente. Do mesmo modo que a maioria dos governos estrangeiros. Diante desse quadro e constatações científicas, o teólogo acredita termos chegado ao limite do planeta, que deve enfrentar uma grande catástrofe social e ambiental.

 

De teólogo renomado, o senhor agora se destaca com livros sobre ecologia. Quando surgiu a necessidade de unir esses dois campos do conhecimento?

A marca registrada da Teologia da Libertação é a opção pelos pobres, a luta contra a pobreza e em favor da vida e da liberdade. Entre os pobres colocamos primeiro os pobres econômicos, os negros, os índios e as mulheres. E eu fui um dos primeiros teólogos da Libertação a se dar conta de que o grande pobre é a Terra. A lógica que explora os pobres, as classes e os países é a mesma que explora a natureza. Para mim, a ecologia é uma continuidade do discurso da Teologia da Libertação.

A Igreja Católica une bem teologia e ecologia ou trata o “casamento” desses dois campos apenas de maneira superficial?

A Igreja está chegando agora ao tema da ecologia porque o assento que ela coloca é mais sobre ela mesmo, fortificando o aspecto institucional, construindo-se para dentro, encurtando o diálogo com o mundo. E o preço a pagar por esse fechamento é que temas importantes, como a globalização, o crescimento dos pobres no mundo, a degradação da natureza, o aquecimento global, não entraram no horizonte das suas reflexões. Só recentemente o papa falou da importância e da contribuição que a Igreja dá à ecologia. Mas é muito superficial. A instituição não se dá conta que é cúmplice da crise ecológica porque, durante séculos, sua evangelização foi dizer que o homem é o rei do universo, que está acima da natureza. 

Esse não é o mesmo discurso das outras igrejas cristãs? E ao agirem assim elas não  estariam sendo relapsas e/ou omissas diante do meio ambiente?

Acho que todas as igrejas abraâmicas – judeus, cristãos e muçulmanos, cuja raiz é a mesma – têm um déficit com respeito à questão ecológica. Elas colocam a natureza como herança que Deus deu para o homem tratá-la como quer. Essa atitude teve a vantagem de secularizar o mundo, abrir espaço para a ciência moderna, mas abriu espaço para o ser humano degradar a natureza e tratar a Terra como um baú, do qual pode-se tirar tudo que é interessante. Esquece-se que a Terra é um organismo vivo e que se autorregula. E o ser humano é apenas um momento dela.

Igrejas são analfabetas ecológicas, como o senhor fala, por não entenderem isso?

São. Primeiro, porque não conhecem a linguagem da natureza. A natureza fala. Vemos isso nos eventos extremos: enchentes, secas, terremotos, vulcões, mas não escutamos porque nos julgamos fora da natureza. Pior, acima da natureza. 

Então, o primeiro passo para a alfabetização ecológica é ouvir a natureza?

O primeiro passo é se dar conta que se faz parte da natureza. Segundo, escutar a natureza. Terceiro, saber que a natureza fala e dá as indicações de onde morar, construir, buscar a segurança dos alimentos. 

Ao falar de ecologia, o senhor não resume à questão do meio ambiente. Mas do ambiente por inteiro. É no sentido de estarmos integrados?

Trabalho em quatro linhas. Primeiro, a ecologia como meio ambiente. A segunda, a ecologia social, que é como nos relacionamos com a natureza, construímos nossas cidades, estradas e fábricas poluidoras. Terceiro, a que acho uma das mais importantea, a ecologia mental, que trata das ideias e trabalha as visões de mundo e o tipo de compreensão que temos da natureza. E uma quarta, a ecologia integral, que é a visão transmitida pelos astronautas, que das naves espaciais veem o planeta como parte do universo e que não há diferença entre ser humano e Terra. 

O modelo de desenvolvimento que está sendo adotado pelo Brasil, visto como uma das bolas da vez da economia global, é compatível com esse ambiente integral?

Não. O capitalismo como tal e o ideal moderno, que vem do século 16, do progresso, do desenvolvimento ilimitado são profundamente antiecológicos porque partem de dois pressupostos falsos: que os recursos são infinitos e que podemos levar esse progresso infinitamente para o futuro. Mas hoje nos damos conta que um planeta finito não suporta um projeto infinito. Esse modelo é condenado ao fracasso e é responsável pelo aquecimento global. Temos que pensar uma nova forma de habitar a Terra, pois estamos fazendo uma guerra total contra Gaia. E não temos nenhuma chance de ganhar. Precisamos da Terra para viver, mas ela não precisa de nós para viver. Ela pode continuar sem a gente.

Temos salvação como planeta ou viveremos a catástrofe prevista por cientistas? 

Tenho uma visão pessimista. Acho que passamos do ponto crítico e vamos ao encontro de uma grande catástrofe social e ambiental. Vamos sofrer muito, com o risco de que grande parte da humanidade desapareça. Porque pesa uma grande ameaça sobre a humanidade, o de um aquecimento global abrupto, como falam cientistas norte-americanos há cinco anos. Não vamos ao encontro do aquecimento, estamos dentro. Só que ele ainda é progressivo, lento. E o aquecimento abrupto se daria com uma possível liberação do metano preso nas calotas polares e solos congelados, que estão derretendo. De repente, a Terra pode passar de um aquecimento de dois para quatro graus em quatro ou cinco anos. Com quatro graus, a vida que conhecemos praticamente vai desaparecer, subsistindo pequenos oásis humanos, pois temos tecnologia e formas de nos adaptar.

Diante desse quadro, o senhor afirma que mais pessoas se integram à visão de uma ecologia integral. Entre essas pessoas estão nossos líderes políticos e industriais? 

Não. São os novos que estão saindo das escolas, universidades. São aqueles que têm antenas para captar as tendências do mundo e estão descompromissados com o projeto econômico do crescimento. Estão fora do sistema capitalista de produção e de especulação. Esses capitalistas até sabem da gravidade da situação, mas preferem manter seus lucros e capitais no pressuposto de que a Terra é suficientemente forte para se restabelecer. Não se dão conta do preço que podemos pagar.

Os governos brasileiros nas esferas federal, estadual e municipal, incluindo os de Lula e Dilma, pecam nesse sentido?

Acho que os governos brasileiros, especialmente o PT, não têm acumulação suficiente ecológica. O PAC não insere o item ecologia. Insere o item impacto ecológico porque a lei exige, mas não como o projeto se relaciona com a natureza, como vai integrar as pessoas e como vai ser a biodiversidade. Isso porque há uma insuficiência teórica dos nossos governos. Diria, uma verdadeira cegueira.

Mudamos politicamente, mas não percebemos a importância do meio ambiente?

Praticamente todos os governos brasileiros não perceberam isso. Talvez o único governo no mundo com preocupação séria e estratégica seja a Alemanha. Por isso, é o país mais avançado em energias alternativas e na preservação das florestas, dos rios. Eles têm uma acumulação científica enorme nessa área e, por outro lado, há uma interação entre governo e sociedade mais orgânica e profunda.